22.7.07

para poucos.

Ela andava em círculos pela casa. Esqueceu onde colocou os óculos, e enquanto isso a água do café se evaporava. Seu pai gritava do outro lado indagando pela quinta chave que ela havia perdido nesse ano. Tantos esquecimentos de coisas concretas e tantas lembranças abstratas. Aflita continuava em seus giros pela casa, ora procurando os óculos, ora as chaves e ora sentia impelida para salvar o pouco que sobrou da água do café, mas sempre acabava seguindo em outra direção que não era a cozinha. Por dentro ela também rodopiava com uma crise de “abstinência”, por uma presença que a tempos atrás foi sua “droga”, mais prazerosa. Essa droga tinha o gosto salgado, abundante e uma cor inventada por ela, ora azul, ora verde, ora negro como a noite... Com doses diárias ela fingia que era feliz. Depois ela se lembrou que sempre rodou em círculos, que fazia e desfazia sua colcha de retalhos como Penélope a espera de Ulisses. Mas “ela” não é Penélope nem espera por nenhum Ulisses, creio que na verdade tem é medo. Já perdeu seus fantásticos castelos, como névoa que esfumaça e quebrou suas lanças uma a uma... Perdeu a sua taça, o meu anel, minha cota de aço, meu corcel, meu elfo de ouro, meu duende de diamantes, minha fada dos sonhos... Só que agora o urgente é encontrar os óculos e a chave, tomar uma xícara de café bem amargo, e quem sabe talvez...


"Promete que vamos subir na duna? [...] Quando? [...] Sério?"


.: Just Feel Better - Steven Tyler/Santana.

Um comentário:

Aldeneides disse...

Linda, que coisa linda viu!! A Carol e seus mistérios sendo disvendados, tu escreve muito bem, beijos.